26 de fevereiro de 2007
Silêncio
Apenas desejo. Quieto. Latindo com neurose. Nada certo pra dizer. Tudo tão dentro da ordem. Tudo funciona daquele modo exato. Eu penso sim sobre algumas coisas íntimas, como este desejo do qual falo. Falo porque não realizo. Se realizasse, falaria mais e com mais explosão. Desejo realizado e corpo satisfeito. A mente borbulha. Depois o telefonema da hora do almoço. "Então tchau". "Tchau". Respiração contida. Desejo contido. Verbo preso bem no meio da garganta. Os pulsos mais do que acelerados. A vontade insensata de gritar o desejo. De fazer o desejo. De não controlar tudo como me pedem. Mas controlo. Talvez por algum respeito à determinada pessoa e por me deparar com a monogamia ocidental. Entretanto, nada faz sentido. Muitas palpitações cardíacas, terminações nervosas e muitos poros para receber o que me cabe. Quero me desvencilhar de algumas amarras. Controlo por medo, por pena, por conveniência, porque é fácil matar desejos. Mandar tudo pro inconsciente. Depois alguns sonhos reveladores, dos quais você se lembra pouco. É claro. Não lhe é permitido deixar todos os desejos bem claros na mente. Geralmente, desejos reprimidos perturbam o cotidiano. Pipocam nos miolos. Pipoca também no meu cérebro o amor líquido dos novos tempos. Dos nossos tempos. O meu amor também é líquido. Como o de todos. Escorre pelas mãos e desce pelo ralo. Eu gostaria de ser mais romântica. Mas a pele fala antes e grita. Por enquanto, calo. Silencio todos os meus gozos. Abro um abismo entre o que penso, o que digo e o que sinto. Suicídio milimetricamente construído. Cada ato que controlo é um ato violento contra mim mesma. Agora, me auto-mutilo. Morte de prazer e de entrega. Morte da vontade própria, em prol de uma monogamia desconhecida. Controlo. É fácil se endurecer. Daqui a pouco, sonharei com tudo. Amanhã já estará tudo no inconsciente, como deve ser... Como uma ironia contra si.
25 de fevereiro de 2007
Hoje eu estou a fim de um guerra. Seja interna ou não. Hoje, todas as ruas poderiam se abrir e, provavelmente, eu não pararia para sentir pena. Falaria qualquer coisa num tom irônico. Pois bem. Sozinha cá numa tarde de quarta-feira de sol. Tudo azul lá fora. Feliz. Estou egocêntrica. Disse que não faria neste ano um diário. Porque tudo deveria adquirir o tom narrativo. Já me esqueço disso e novamente, como um caminho sem fuga, inicio aqui um discurso qualquer para tentar elucidar ou digerir as coisas que passam por mim. Estou como uma tábula rasa. Me moldo conforme me é conveniente. Já disse isso nalguma vez e isso nem é fato importante – é só conseqüência. (14/02/2007)
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