A literatura permite dizer verdades – onde tudo é tratado como ficção. Nalgum dia, se pode fazer todas as revelações e ninguém ser acusado por isso. Estou condenada a mentir. Ou a calar. Revelar-se é crime. Não achei que o fosse. Pensei que a revelação, qualquer uma sobre qualquer assunto, era uma virtude. Expressar-se era um privilégio. Disparar verdades a quem quer que fosse se tornara um tipo de alívio. Daí vieram outras acusações, alguns acordos, algum ouvido tapado e outra boca muda. Ás vezes um diálogo fervoroso. Depois, uma cara pálida. Por tantas outras vezes, um diálogo indecifrável. Há tempos atrás uma confissão para quem não queria ouvir. De qualquer forma, um alívio. Uma espécie de gratidão, uma espécie de justiça comigo e com o outro.
Eu disse o que queria dizer. Cara pálida.
Eu queria falar mesmo, de sopetão, porque todo o discurso já tinha sido feito e refeito dentro da minha cabeça. Era preciso parar o tempo e despejar os incômodos. Boca tapada.
Daí um beijo não dado, um par de olhos que me fitava espantado. Depois a angústia de ter dito e se arrepender – parece que o movimento é sempre o mesmo. Tudo o que é impulsivo parece ser ruim. Não me era mal ser impulsiva há anos atrás. Era preciso escancarar os fatos para quem quisesse ouvir. Megafone. Isso não era, por fim, para ofender. Eu pensei que da revelação, pudesse surgir uma outra gama de possibilidades. Através dela, poderia recompor o jogo. Mudar, anular, consertar algo que me incomodava. Não era para ser um susto. Criou-se uma bola de incômodo, de culpa, de distorções. Eu juro que não queria assim. Mas já foi e disse absolutamente tudo o que precisava dizer. Descobri que eu não era livre com alguém específico e que o pudor que se tinha como respeito, é violência disfarçada. Violência de não permitir o inédito, violência de não permitir o prazer do outro, violência de querer para si algum ideal. Longe. Eu sinto muito se o fato de me revelar machuca o outro. Sinto muito se não há força para me rebater. Triste. Sem graça porque eu quis ser feliz e agora não mais. Agora uma estupidez sem tamanho nem lógica. Nada. Queria, apenas, um jogo de forças.
15 de abril de 2007
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