10 de junho de 2007

Descem ruas íngremes, param na casa de um amigo. Histórias de conhecidos. Frio paulistano, difícil de se acostumar. Paralelas. Faróis. Muro. De novo, o cheiro. Cara carrancuda a dele. Helena estranha. Dali a três quadras. Mais cerveja. Bar lotado. Ele fala alto. Helena não entende. Segue. Histórias dos amigos, dos pais, das mudanças em território alheio. Mais três quadras chegam num hotel da Santa Cecília. A mulher reconhece pouco o lugar. No último andar. Quarto cor-de-rosa. Uma pia. Três camas de solteiro. Uma janela de madeira velha e pintada de verde. Músicas. Muita maconha. Cerveja. Quase todas largadas pelos cantos. Um êxtase desenfreado, do qual Helena tinha quase esquecido. Uma laje que abarcava um céu limpo. Outdoor. Cimento. Telhas. Topos de prédio. Gozo espalhado aos quatro-ventos.

Eles eram gostosos e concordavam em relação a isto. Sabiam perfeitamente, qual tipo de prazer queriam. Depois uma autoridade quase cruel. O homem submetia Helena tanto quanto podia e lhe revelava todo o poder com algum tipozinho de amor. Falo de “tipozinho”, assim com tal ironia, porque se trata de alguma coisa, impestuosa e passageira. Assim espero para que Helena não se flagre querer poderes, que talvez, não tenha. Não pode ultrapassar os muros e apaixonar-se, assim, como numa história de príncipes. O caminho é contra isso. O caminho é de liberdade e, por isso, mais difícil. O dia seguinte com sol. Helena com alguma ressaca, o homem com alguma frieza. Tinha sido bom conhecer um ao outro mesmo. Valeu a pena a insistência e a mulher quase agradecia por isso. Ele espera que ela ligue. Helena liga. É obediente. Vai para o ponto de ônibus com alguma dúvida. A cabeça como motocontínuo de cenas, de ontem, do começo, do fim, do agora. Agora, ela com alguma persistência mal-vinda. Poderia insistir, sorrir, ligar sim e ligar sempre. Desvirtuar. Esquecer aquilo que já tinha sido combinado. Ali, estava o começo e o fim. Mas a vontade da mulher de se enfiar em romances era nula e ainda o é. Ainda com resquício de dor. Esquece o abismo que se abriu.

(...) Algum domínio sim. Peculiar. Coisas mais de corpo do que de amor. Gestos muito bem desenhados no espaço. A iluminação no quarto dá a Helena uma outra referência do rosto dele. Olhos grandes. Uma pinta na mão. Solas dos pés duras.
Ela desce. Em sua bolsa ainda ficam os óculos e um texto dele. Ele ainda avisou na noite anterior para Helena não esquecer de devolver. Mas, ela insiste em carregar o homem para a sua vida. Ele ligou depois. Disse que enviaria seu endereço e então ela poderia mandar as coisas. Acabou ali. Um bom sentimento. Muitas saudades. Sexta-feira chuvosa em São Paulo. Atraso nos aeroportos. Ele ia para longe. Ela ficaria aqui ainda, nas ruas sujas e no caos das cores e das buzinas.

(...) Duas semanas se passaram desde o último e-mail. Acredito que o homem tenha esquecido da servidão e da fragilidade de Helena. Deve ter se esquecido de tudo no primeiro ventre que viu. Em outra Helena qualquer, obediente também. Obediente porque com ele tudo é somente uma questão de força. Sexo com filosofia marxista? Ele precisa oprimir e a mulher, sempre Helena.
Mas, “se não há culpado, não pode haver condenação”. Então, Helena não julga. E esquece.


trechos de "Helena" / (27/04/07-13/05/07)
Eu queria um minuto de sossego. Ficar bem quieta numa casa vazia. Agora, nesta época muita gente e muita coisa por fazer. Essas coisas matam diariamente. Eu quase não consigo esboçar qualquer manifestação diante das coisas. O tempo corre e os eventos pipocam. Encontro com pessoas. Café da manhã. Parada Gay. Vestibular. Uma coisa sobre a outra. Tudo em fragmento. Pequenas colorações diárias. Pequenas sensações que te fazem escapar do vazio. Outras coisas para pensar. Outros olhos. Entretanto, ainda e sempre, a vontade de ficar quieta num quarto escuro. A vida pede urgência e os seus desejos vão para o inferno. Toda individualidade possível para a falta de tempo. Trabalho para ganhar seu dinheiro, universidade, família, outros atores. A individualidade feroz para, no fim, não ter tempo de exercê-la. Abismo como arco-íris.

1 de maio de 2007

Dorzinha

Dorzinha. De leve. Aquela no meio das costas. Atravessa. É preciso de algum alongamento dos órgãos internos. Sempre a mesma curvatura nas costas. O mesmo olhar sobrebaixado para não ter que olhar. Porque olhar faz mal. Por vezes. Agora, endireita-se na cadeira e mantém os olhos baixos como uma digitadora. Simples assim. Sem nenhuma exigência maior da sua capacidade de raciocínio. Um fim. Uma morte sonora. Piiiiiiiiiiiiiiiiiii. Desembesta. Curva de novo a coluna, curva todas as vértebras para olhar o umbigo. Abrir o peito, manter a coluna alinhada, aqui no computador ou em qualquer outro local, pode ser custoso. É preciso um exercício para abrir o peito. Um pouco de rigidez e pressão abdominal para manter a postura. Isso é por causa de umas dores antigas. Um tipo de fórmula descrente que te enfurece. Quase um estacionamento de coragem. Você permanece quieto, no mesmo cruzamento das linhas imaginárias, no mapa-mundi. Uma bala atravessa o peito. Não há ferradura. Preciso de uma. De escudo. Falta um pouco de prepotência e seriedade. Olhar-se de fora. Examinar com prontidão o que lhe incomoda. Incomoda-me o olhar baixo. O medo da reprovação. A possibilidade única do pior. Sempre se pensa no pior. Por isso, não se exige melhoria. Conformismo. Estacionamento de objetividade. Podia até fazer trabalho científico, com método e observação, sobre o estacionamento dos passos. Há necessidade de um resgate quase estrelar – de anos-luz. Um tipo de força da revolta. Os olhos claros, grandes e abertos. Dizendo, que sim, eu ainda existo. Não sentir os joelhos frouxos, o andar cambaleante, a vista cansada e o tom baixo da voz. Andar como um bloco de concreto. Frio e cinza. Alguma cor nas extremidades, para não dizer que sou preto e branco.
No fim, sou. Bem escura. Não há motivo agora, de bexigas coloridas e passos acelerados de crianças. Nem brigadeiro ou copo de plástico com refrigerante. Não há a alegria dos papéis de presentes brilhantes. Nada. Solidão no escuro.
Um ponto ainda de luz. Se é que existe. Existe. Basta uma respiração inicial para desafogar as veias. Para deixar que o sangue circule ainda e, que as células mantenham o exercício de contração e abertura. Preciso de sol nos poros. Fortalecer os ossos. Olhar bem para a claridade, deixar secar o sangue quente sobre a pele.
Ocorre uma seqüência de interrupções. Interrupção do desenvolvimento do outro e do meu. O estacionamento das relações. Um dominó de bloqueios. Quase sem possibilidade de fala. Como estar ao lado de alguém e este ser inalcancável. Um abismo entre dois corpos e duas consciências. Um precipício de julgamento e de condenação.
Depois tudo retorna a você. Só você sabe quando o calo dói. Tenho um calo no centro das costas. Abre e atravessa.

(01/05)

15 de abril de 2007

Fala

A literatura permite dizer verdades – onde tudo é tratado como ficção. Nalgum dia, se pode fazer todas as revelações e ninguém ser acusado por isso. Estou condenada a mentir. Ou a calar. Revelar-se é crime. Não achei que o fosse. Pensei que a revelação, qualquer uma sobre qualquer assunto, era uma virtude. Expressar-se era um privilégio. Disparar verdades a quem quer que fosse se tornara um tipo de alívio. Daí vieram outras acusações, alguns acordos, algum ouvido tapado e outra boca muda. Ás vezes um diálogo fervoroso. Depois, uma cara pálida. Por tantas outras vezes, um diálogo indecifrável. Há tempos atrás uma confissão para quem não queria ouvir. De qualquer forma, um alívio. Uma espécie de gratidão, uma espécie de justiça comigo e com o outro.
Eu disse o que queria dizer. Cara pálida.
Eu queria falar mesmo, de sopetão, porque todo o discurso já tinha sido feito e refeito dentro da minha cabeça. Era preciso parar o tempo e despejar os incômodos. Boca tapada.
Daí um beijo não dado, um par de olhos que me fitava espantado. Depois a angústia de ter dito e se arrepender – parece que o movimento é sempre o mesmo. Tudo o que é impulsivo parece ser ruim. Não me era mal ser impulsiva há anos atrás. Era preciso escancarar os fatos para quem quisesse ouvir. Megafone. Isso não era, por fim, para ofender. Eu pensei que da revelação, pudesse surgir uma outra gama de possibilidades. Através dela, poderia recompor o jogo. Mudar, anular, consertar algo que me incomodava. Não era para ser um susto. Criou-se uma bola de incômodo, de culpa, de distorções. Eu juro que não queria assim. Mas já foi e disse absolutamente tudo o que precisava dizer. Descobri que eu não era livre com alguém específico e que o pudor que se tinha como respeito, é violência disfarçada. Violência de não permitir o inédito, violência de não permitir o prazer do outro, violência de querer para si algum ideal. Longe. Eu sinto muito se o fato de me revelar machuca o outro. Sinto muito se não há força para me rebater. Triste. Sem graça porque eu quis ser feliz e agora não mais. Agora uma estupidez sem tamanho nem lógica. Nada. Queria, apenas, um jogo de forças.

19 de março de 2007

"A vantagem do amor sobre a libertinagem é a multiplicação dos prazeres"
Montesquieu (1689-1755)



Desalento

Chico Buarque
Composição: Chico Buarque - Vinicius de Moraes

Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu chorei
Que eu morri
De arrependimento
Que o meu desalento
Já não tem mais fim

(...)

Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu rodei
Que eu bebi
Que eu caí
Que eu não sei
Que eu só sei
Que cansei, enfim
Dos meus desencontros
Corre e diz a ela
Que eu entrego os pontos

http://chico-buarque.letras.terra.com.br/letras/85954/

26 de fevereiro de 2007

Silêncio

Apenas desejo. Quieto. Latindo com neurose. Nada certo pra dizer. Tudo tão dentro da ordem. Tudo funciona daquele modo exato. Eu penso sim sobre algumas coisas íntimas, como este desejo do qual falo. Falo porque não realizo. Se realizasse, falaria mais e com mais explosão. Desejo realizado e corpo satisfeito. A mente borbulha. Depois o telefonema da hora do almoço. "Então tchau". "Tchau". Respiração contida. Desejo contido. Verbo preso bem no meio da garganta. Os pulsos mais do que acelerados. A vontade insensata de gritar o desejo. De fazer o desejo. De não controlar tudo como me pedem. Mas controlo. Talvez por algum respeito à determinada pessoa e por me deparar com a monogamia ocidental. Entretanto, nada faz sentido. Muitas palpitações cardíacas, terminações nervosas e muitos poros para receber o que me cabe. Quero me desvencilhar de algumas amarras. Controlo por medo, por pena, por conveniência, porque é fácil matar desejos. Mandar tudo pro inconsciente. Depois alguns sonhos reveladores, dos quais você se lembra pouco. É claro. Não lhe é permitido deixar todos os desejos bem claros na mente. Geralmente, desejos reprimidos perturbam o cotidiano. Pipocam nos miolos. Pipoca também no meu cérebro o amor líquido dos novos tempos. Dos nossos tempos. O meu amor também é líquido. Como o de todos. Escorre pelas mãos e desce pelo ralo. Eu gostaria de ser mais romântica. Mas a pele fala antes e grita. Por enquanto, calo. Silencio todos os meus gozos. Abro um abismo entre o que penso, o que digo e o que sinto. Suicídio milimetricamente construído. Cada ato que controlo é um ato violento contra mim mesma. Agora, me auto-mutilo. Morte de prazer e de entrega. Morte da vontade própria, em prol de uma monogamia desconhecida. Controlo. É fácil se endurecer. Daqui a pouco, sonharei com tudo. Amanhã já estará tudo no inconsciente, como deve ser... Como uma ironia contra si.