Dorzinha. De leve. Aquela no meio das costas. Atravessa. É preciso de algum alongamento dos órgãos internos. Sempre a mesma curvatura nas costas. O mesmo olhar sobrebaixado para não ter que olhar. Porque olhar faz mal. Por vezes. Agora, endireita-se na cadeira e mantém os olhos baixos como uma digitadora. Simples assim. Sem nenhuma exigência maior da sua capacidade de raciocínio. Um fim. Uma morte sonora. Piiiiiiiiiiiiiiiiiii. Desembesta. Curva de novo a coluna, curva todas as vértebras para olhar o umbigo. Abrir o peito, manter a coluna alinhada, aqui no computador ou em qualquer outro local, pode ser custoso. É preciso um exercício para abrir o peito. Um pouco de rigidez e pressão abdominal para manter a postura. Isso é por causa de umas dores antigas. Um tipo de fórmula descrente que te enfurece. Quase um estacionamento de coragem. Você permanece quieto, no mesmo cruzamento das linhas imaginárias, no mapa-mundi. Uma bala atravessa o peito. Não há ferradura. Preciso de uma. De escudo. Falta um pouco de prepotência e seriedade. Olhar-se de fora. Examinar com prontidão o que lhe incomoda. Incomoda-me o olhar baixo. O medo da reprovação. A possibilidade única do pior. Sempre se pensa no pior. Por isso, não se exige melhoria. Conformismo. Estacionamento de objetividade. Podia até fazer trabalho científico, com método e observação, sobre o estacionamento dos passos. Há necessidade de um resgate quase estrelar – de anos-luz. Um tipo de força da revolta. Os olhos claros, grandes e abertos. Dizendo, que sim, eu ainda existo. Não sentir os joelhos frouxos, o andar cambaleante, a vista cansada e o tom baixo da voz. Andar como um bloco de concreto. Frio e cinza. Alguma cor nas extremidades, para não dizer que sou preto e branco.
No fim, sou. Bem escura. Não há motivo agora, de bexigas coloridas e passos acelerados de crianças. Nem brigadeiro ou copo de plástico com refrigerante. Não há a alegria dos papéis de presentes brilhantes. Nada. Solidão no escuro.
Um ponto ainda de luz. Se é que existe. Existe. Basta uma respiração inicial para desafogar as veias. Para deixar que o sangue circule ainda e, que as células mantenham o exercício de contração e abertura. Preciso de sol nos poros. Fortalecer os ossos. Olhar bem para a claridade, deixar secar o sangue quente sobre a pele.
Ocorre uma seqüência de interrupções. Interrupção do desenvolvimento do outro e do meu. O estacionamento das relações. Um dominó de bloqueios. Quase sem possibilidade de fala. Como estar ao lado de alguém e este ser inalcancável. Um abismo entre dois corpos e duas consciências. Um precipício de julgamento e de condenação.
Depois tudo retorna a você. Só você sabe quando o calo dói. Tenho um calo no centro das costas. Abre e atravessa.
(01/05)
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Um comentário:
eu queria muito comentar.. eu diria comentar a altura, mas achoque você cuspiria na minha cara... de qualquer modo é um encanto e uma dor... faz tempo que não leio teus textos. eu não sabia, só imaginava, o quanto refinada tornou-se a sua escrita.
o que você escreve e achoque por te conhecer bem me deixa cru, me deixa nu. fico pensando nesta coisa do estacionamento fico pensando no centro da cidade virando um grande estacionamento fico pensando que os centros e já não mais os centro , tudo vai virando um estacionamento. Estive em porto alegre e um edificio antigo e bonito foi demolido por dentro e restou apenas a carcaça. e dentro irão construir um estacionamento. será o mesmo conosco?
pneus, maquina, fumaça e seguro contra roubo...
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