Descem ruas íngremes, param na casa de um amigo. Histórias de conhecidos. Frio paulistano, difícil de se acostumar. Paralelas. Faróis. Muro. De novo, o cheiro. Cara carrancuda a dele. Helena estranha. Dali a três quadras. Mais cerveja. Bar lotado. Ele fala alto. Helena não entende. Segue. Histórias dos amigos, dos pais, das mudanças em território alheio. Mais três quadras chegam num hotel da Santa Cecília. A mulher reconhece pouco o lugar. No último andar. Quarto cor-de-rosa. Uma pia. Três camas de solteiro. Uma janela de madeira velha e pintada de verde. Músicas. Muita maconha. Cerveja. Quase todas largadas pelos cantos. Um êxtase desenfreado, do qual Helena tinha quase esquecido. Uma laje que abarcava um céu limpo. Outdoor. Cimento. Telhas. Topos de prédio. Gozo espalhado aos quatro-ventos.
Eles eram gostosos e concordavam em relação a isto. Sabiam perfeitamente, qual tipo de prazer queriam. Depois uma autoridade quase cruel. O homem submetia Helena tanto quanto podia e lhe revelava todo o poder com algum tipozinho de amor. Falo de “tipozinho”, assim com tal ironia, porque se trata de alguma coisa, impestuosa e passageira. Assim espero para que Helena não se flagre querer poderes, que talvez, não tenha. Não pode ultrapassar os muros e apaixonar-se, assim, como numa história de príncipes. O caminho é contra isso. O caminho é de liberdade e, por isso, mais difícil. O dia seguinte com sol. Helena com alguma ressaca, o homem com alguma frieza. Tinha sido bom conhecer um ao outro mesmo. Valeu a pena a insistência e a mulher quase agradecia por isso. Ele espera que ela ligue. Helena liga. É obediente. Vai para o ponto de ônibus com alguma dúvida. A cabeça como motocontínuo de cenas, de ontem, do começo, do fim, do agora. Agora, ela com alguma persistência mal-vinda. Poderia insistir, sorrir, ligar sim e ligar sempre. Desvirtuar. Esquecer aquilo que já tinha sido combinado. Ali, estava o começo e o fim. Mas a vontade da mulher de se enfiar em romances era nula e ainda o é. Ainda com resquício de dor. Esquece o abismo que se abriu.
(...) Algum domínio sim. Peculiar. Coisas mais de corpo do que de amor. Gestos muito bem desenhados no espaço. A iluminação no quarto dá a Helena uma outra referência do rosto dele. Olhos grandes. Uma pinta na mão. Solas dos pés duras.
Ela desce. Em sua bolsa ainda ficam os óculos e um texto dele. Ele ainda avisou na noite anterior para Helena não esquecer de devolver. Mas, ela insiste em carregar o homem para a sua vida. Ele ligou depois. Disse que enviaria seu endereço e então ela poderia mandar as coisas. Acabou ali. Um bom sentimento. Muitas saudades. Sexta-feira chuvosa em São Paulo. Atraso nos aeroportos. Ele ia para longe. Ela ficaria aqui ainda, nas ruas sujas e no caos das cores e das buzinas.
(...) Duas semanas se passaram desde o último e-mail. Acredito que o homem tenha esquecido da servidão e da fragilidade de Helena. Deve ter se esquecido de tudo no primeiro ventre que viu. Em outra Helena qualquer, obediente também. Obediente porque com ele tudo é somente uma questão de força. Sexo com filosofia marxista? Ele precisa oprimir e a mulher, sempre Helena.
Mas, “se não há culpado, não pode haver condenação”. Então, Helena não julga. E esquece.
trechos de "Helena" / (27/04/07-13/05/07)
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Um comentário:
Brlzita, estás cada dia melhor sabias? (e não me venhas com seu pessimismo em dizer que isso é porque estás cada dia pior..hehe)
Tive saudades boas e ruins ao sentir o cheiro e gosto de são paulo nas suas linhas...
Também me lembrei das helenas do chico.
Em setembro acho que faço visita. Quero te ver e te dar um abraço.
Beijos mil.
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